Crítica WhereToEatNow
São talvez 20 lugares, uma ementa de ardósia que muda ao sabor do mercado e da disposição de André Magalhães, e praticamente nenhuma hipótese de entrar depois das 19h sem esperar. É assim a Taberna da Rua das Flores, e mal se instala neste cantinho minúsculo do Bairro Alto percebe porque é que as pessoas abdicam de bom grado de uma hora da noite só para conseguir um banco. Não se aceitam reservas, não há confusões, não há cedências.
O que sai daquela cozinha apertada supera em muito a escala humilde da sala. Os enchidos são escolhidos com verdadeiro cuidado, e as conservas de peixe — o mais português dos ingredientes de despensa — são tratadas como arte e não como atalho. Depois há os pratos do dia rabiscados no quadro: arroz de polvo, bochechas de porco estufadas devagar, aquilo que André encontrou com bom aspeto nessa manhã. São de uma qualidade discreta e constante, daqueles petiscos que se pede sempre mais um.
Beber é metade da diversão. A carta de vinhos naturais pende para o lado mais selvagem e aventureiro, por isso entregue-se às mãos do pessoal e deixe que lhe sirvam algo turvo e vivo que nunca escolheria numa prateleira de supermercado. Os preços situam-se num intervalo justo para a zona e, como tudo é pensado para partilhar, uma mesa de dois ou três petisca à vontade sem estourar o orçamento.
A estratégia é simples: chegue ao meio-dia ou às 18h em ponto, antes de a fila crescer, garanta os lugares e prepare-se para ficar. Peça muito, confie nos pratos do dia, confie nas escolhas de vinho e deixe a noite desenrolar-se ao seu ritmo. É cozinha lisboeta contemporânea com alma e não com espetáculo — a prova de que as melhores refeições saem muitas vezes das salas mais pequenas.