Crítica WhereToEatNow
A cultura de café portuguesa é maravilhosa e o café dela é, pelos padrões internacionais de especialidade, que não. A bica tradicional é uma torra escura, carregada de robusta, tirada curta e amarga, e o país gosta assim. A Fábrica existe para quem não gosta, e não pede desculpa por nenhuma das posições.
Torram ali — a máquina está à vista — e os grãos rodam por origens únicas com as notas de prova escritas como deve ser. Peça um filtrado se quiser mesmo provar o que estão a fazer; o expresso é bom, mas é no coado que o aprovisionamento aparece. Os flat whites e cortados são competentes, com leite vaporizado e não fervido, o que parece exigência baixa e é uma em que boa parte da cidade falha.
Há comida — pastelaria, tostas, pratos de pequeno-almoço decentes — e é correcta sem ser a razão para ir. A sala na Rua das Portas de Santo Antão é clara, movimentada e roda depressa.
Notas honestas: vai pagar duas ou três vezes o que custa uma bica ao balcão do lado, e para muita gente essa é simplesmente a troca errada. Está também firmemente no idioma internacional do café de especialidade, por isso parece um bom café de qualquer cidade e não de Lisboa. Se quer a tradição local, vá a uma pastelaria. Se anda há uma semana com saudades de um filtrado bem torrado, é aqui que se resolve.