Crítica WhereToEatNow
O Belcanto e daqueles restaurantes em que cada prato chega com uma pequena historia agarrada e, quando a sobremesa aparece, percebe que a refeicao inteira foi uma narrativa continua sobre Portugal. O chef Jose Avillez pega nos produtos nacionais mais humildes, o bacalhau, o pao, o azeite, e transforma-os ate se ver a reconsiderar em silencio tudo o que julgava que a cozinha portuguesa podia ser. As duas estrelas Michelin e o lugar entre os 50 melhores do mundo nao sao aqui enfeite. Sao merecidos, prato a prato.
A sobremesa de que todos falam chama-se O Jardim da Galinha dos Ovos de Ouro, um prato tao brincalhao e preciso que justificaria a reserva sozinho. Mas o verdadeiro prazer esta no arco de todo o menu de degustacao, na forma como o salgado cresce ate ao doce e a tecnica nunca sufoca o sabor. Nada aqui e inteligente so por ser.
A harmonizacao de vinhos e verdadeiramente excecional, apoiada em referencias raras de regioes portuguesas que a maioria dos clientes nunca ouviu nomear, servidas por uma equipa que claramente adora apresenta-las. O servico e caloroso sem nunca cair na formalidade rigida, um truque raro e dificil a esta altura da alta cozinha, e que o Belcanto sustenta a noite inteira.
E um restaurante de ocasiao especial no sentido pleno, instalado numa sala deslumbrante no coracao do Chiado, e pede-lhe alguma preparacao em troca. Reserve com semanas de antecedencia, porque as mesas desaparecem depressa. Vista-se a altura da sala. E, acima de tudo, chegue com fome e sem pressa, com espaco e tempo para cada prato, porque atravessar o Belcanto a correr seria falhar por completo o motivo de la ir.